ARTIGO – Farmacêuticos não cometem empurroterapia

Temos lido, com perplexidade, matérias publicadas na imprensa dando conta de que farmacêuticos estão forçando a venda de medicamentos (a prática é denominada de “empurroterapia”), ou substituindo medicamentos de referência por similares. Há um equívoco nas notícias. Afinal, que interesse os farmacêuticos teriam em cometer a empurroterapia, se eles, os guardiões da sociedade para assuntos relacionados ao uso de produtos farmacêuticos, não ganham nenhum tipo de comissão, nem logram vantagens outras ou quaisquer lucros sobre as vendas? E a empurroterapia é exatamente uma vil expressão do lucro.

A empurroterapia é uma ação perniciosa e perversa, praticada por alguns balconistas – e jamais por farmacêuticos – contra cidadãos incautos. Ela pode ser parte de uma engrenagem diabólica que visa exclusivamente ao lucro. Como os seus praticantes não têm lastro ético, nem preocupação com a saúde das pessoas, pouco se lhes importa os resultados que a sua ação pode gerar. E – pasme o leitor – o medicamento “empurrado” ao paciente é capaz de desencadear graves problemas à saúde.

Um exemplo corriqueiro: um paciente vai a uma farmácia, queixando-se de dor de garganta. Uma dor de garganta pode ter origem numa infecção viral ou bacteriana. Se viral, não há necessidade de ele usar antibiótico, mas, dependendo do caso, apenas um medicamento para combater a dor (um analgésico ou um antiinflamatório).
Se, contudo, a infecção é causada por bactéria, aí, sim, o tratamento medicamentoso deve ser desenvolvido à base de antibiótico cuja escolha depende da sensibilidade bacteriana. Portanto, teria que ser um medicamento específico para aquele micróbio. Mas, ressalte-se, o diagnóstico que definirá o tratamento é do médico.

Portanto, empurrar ao paciente um medicamento sem o diagnóstico da doença é uma imperícia. Para ser mais preciso e justo, é uma irresponsabilidade do tamanho da fome de comissão sobre as vendas de quem perpetra o ato execrável.

O uso de antibióticos desnecessário e fruto da empurroterapia pode resultar na resistência microbiana. Ou seja, bactérias podem ficar resistentes àquele medicamento e quando o paciente contrair uma infecção por bactérias, estas podem não mais ser debeladas com o mesmo remédio.
Esta situação pode levar o paciente a ter que buscar o médico e, dependendo da gravidade, até ser hospitalizado. Ele terá a sua qualidade de vida comprometida, a sua saúde diminuída e acumulará prejuízos ao seu bolso e aos cofres públicos.

O farmacêutico, portanto, não é um praticante da empurroterapia. Até porque os farmacêuticos, por meio do Conselho Federal de Farmácia, participaram intensamente da elaboração da política de genéricos e sabem de sua confiabilidade e do seu grande alcance social, devido aos seus preços em média 40% menores que os produtos de referência.

Mas já que falamos em similares, gostaria de salientar que esses medicamentos não são vilões como muitos apregoam. Afinal, eles estão sendo vendidos nas farmácias com a autorização e o referendo da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão do Governo. Nós acreditamos nos similares, porque acreditamos na Anvisa.

Ainda sobre a empurroterapia, afirmo que ela é a antítese do uso racional de medicamentos. E tudo o que os farmacêuticos defendem é que os medicamentos sejam usados com racionalidade, ainda que isso lhes custe pressões contrárias de proprietários de farmácias não farmacêuticos.

Afirmar que farmacêuticos cometem empurroterapia é como dizer que pilotos de avião são suicidas, que policiais têm compulsão por matar e que engenheiros civis tramam ver os prédios que projetam ruírem. Se um farmacêutico cometesse a empurroterapia, ele o faria com a consciência de que estaria cometendo uma grave falta ética e que seria punido pelo Conselho Regional de Farmácia ao qual está inscrito.

Gostaria de salientar que o Conselho Federal de Farmácia tem buscado as autoridades de todos os poderes constituídos para alertá-los da necessidade de que o modelo de farmácias comunitárias (ou particulares) seja mudado. O modelo atual transformou muitos estabelecimentos farmacêuticos em mercadinhos que funcionam, muitas vezes, à luz do lucro fácil e aético, trazido, a toque de caixa, pelo mesmo sentido que rege a disputa concorrencial de um tipo de mercado nocivo, que põe o seu próprio interesse acima dos interesses sociais.

Este modelo construiu uma lógica absurda que transformou os medicamentos em meros objetos de venda ou em uma mercadoria banal e conseguiu arrancar deles (os medicamentos) o seu sentido nobre, que é manter a saúde e curar a doença. Este mesmo modelo criou a horripilante empurroterapia a qual nós, farmacêuticos, abominamos em nome da vida.

Jaldo de Souza Santos,
Presidente do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
Fonte: http://www.cff.org.br/

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